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ALCÁCER DO SAL

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Escola e Património

 

Património Cultural de Alcácer do Sal

 

Festas e Vivências

 

Mitos e Lendas

 

 

ALCÁCER DO SAL, A PORTA DO SUL


 

REFLEXÕES

   

ESCOLA E PATRIMÓNIO

PATRIMÓNIO CULTURAL DE ALCÁCER DO SAL

ESCOLA E PATRIMÓNIO  

Nesta era da globalização, a massificação dos modelos comportamentais asfixia as diferenças, os regionalismos, possibilitando a perda da identidade cultural das comunidades.

 

  O estudo da história local permite que se faça frente a problemas de desenraizamento e identidade cultural que caracterizam cada vez mais a nossa sociedade, facilitando de uma forma mais fácil  a identificação, que ajuda a construir uma identidade, em espaços e grupos mais limitados.

 

  O conhecimento do passado da comunidade local permite ao aluno compreender melhor a sociedade em que vive e na qual irá intervir, preparando-o para o exercício de uma cidadania consciente. Assim, a questão do património cultural é quase obrigatória nos dias que correm, é um problema que invade a Escola e que exige dela uma resposta adequada, um tratamento pedagógico-didáctico que motive os jovens para o estudo das realidades patrimoniais e que desenvolva neles capacidades de investigação e de «leitura» histórica do património, bem como atitudes de cidadania que se traduzam na defesa e preservação do que constitui parte integrante e significativa do percurso temporal da sociedade em que se inserem.

 

 Defender o património em termos de futuro, passa, fundamentalmente, pela educação e sensibilização dos jovens para a preservação dos bens patrimoniais; ora, a Escola desempenha um papel único nesta matéria, ao formar cidadãos conscientes das acções que devem empreender, sobretudo ao nível local, relativamente ao património. (cf http://www.prof2000.pt/users/cfppa/forma2002/prog06.htm). E sabemos que a Escola tem demonstrado, através dos vários projectos de investigação integrados nos Planos Anuais de Actividades, ser possível cativar os alunos para a questão do património local. Observo que, no nosso concelho, muitas educadoras de infância já sensibilizam crianças de 3, 4 anos para a importância do conhecimento e preservação do património local. É frequente ver um grupo de crianças do infantário X percorrer as ruas de Alcácer para visitar o museu municipal, por exemplo. Se atendermos aos Projectos Educativos e Planos Anuais de Actividades das Escolas do Ensino Básico e Secundário, constatamos que, de modo mais ou menos intenso, o apelo ao estudo do património local existe. In Neptuno, Revista da Associação de Defesa do Património Cultural de Alcácer do Sal, nº 2, Outubro, 2004

 

PATRIMÓNIO CULTURAL DE ALCÁCER DO SAL

 

- Professora…

- Sim…

- Explique lá melhor o que é isso do património cultural…

- E o que é que sabes sobre isso?

- Huum… a igreja abandonada que fomos ver faz parte do património, os museus guardam os vestígios históricos que se encontram em escavações …

- Certo e mais? …

- A maneira como falamos é património? O que comemos e como comemos é património?

- Sim. Tal como as ruas medievais que percorremos até à escola, a forma de amanhar a terra, os cantares que os nossos coros reconstituem…

- Professora?...

- Sim?

- E os mosquitos fazem parte do nosso património?

(risada geral na aula)

 

O património cultural do concelho de Alcácer do Sal é responsável pela continuidade histórica de uma comunidade que se reconhece ao longo de milhares de anos e corporifica seus ideais e valores, transcendendo as gerações. Os legados históricos e artísticos são os ícones que personalizam os lugares, são os pontos referenciais nos percursos do dia-a-dia. São, portanto, importantes factores de coesão social, de orientação e identidade, sem os quais a estabilidade psíquica e os valores existenciais de cada um não existiriam.

Não se entende mais o património cultural como peça de museu separada do quotidiano das populações, mas como instrumento de construção viva das realidades pessoais e de seu entendimento no mundo. Assim, se considerarmos que o património cultural materializa os laços que unem histórica e geograficamente um povo, passa a ser clara sua importância como instrumento de cidadania e inclusão social, com efeitos óbvios na auto-estima das populações.

 

O estudo do património local constitui também uma importante experiência educativa, facilitadora da integração das crianças e dos jovens na comunidade. O património cultural de uma nação, que compreende o artístico, estético, histórico, turístico e arqueológico é importantíssimo para a sua própria sobrevivência, de forma que deve ser protegido pelos seus cidadãos, os quais têm a obrigação de conhecê-lo, bem como saber como protegê-lo.

 

A Associação do Património de Alcácer nasce para ser parte de todos, nasce para em conjunto cuidarmos daquilo que nos transforma em seres únicos dentro da teia da globalização: o NOSSO PATRIMÓNIO. In Neptuno, Revista da Associação de Defesa do Património Cultural de Alcácer do Sal, nº 0, Abril, 2004

 

 

FESTAS E VIVÊNCIAS

   

FESTA DO BOM JESUS DOS MÁRTIRES, FESTA DOS MALTESES

QUADRILHA DO ZÉ RATO

FESTA DO BOM JESUS DOS MÁRTIRES, FESTA DOS MALTESES

 

“As festas realizadas no local do Sr. dos Mártires eram também conhecidas pela "Festa dos Malteses" já que nesses dias eram feitos peditórios para os Malteses.

 Mas quem eram os Malteses? Dizem-nos as pessoas que os conheceram, que eram homens que andavam de terra em terra sem ter mais do que a roupa que vestiam, uma alcofa e uma panela. O seu vestuário resumia-se a uma camisa azul da tropa e umas calças da mesma cor ou de cotim russado. Usavam sempre uma manta, que os protegia do frio, e na mão traziam um bordão.

Na Festa dos Malteses, faziam-se quermesses, armavam-se barracas que vendiam queijadinhas de Sintra, pirolitos, bebidas, frutas e doces. Cada família levava os seus farnéis, onde o vinho era o elemento fundamental. Os homens participavam nas cavalhadas, corridas em cima de burros, ou cavalos, que pretendiam alcançar o prémio pendurado no arame, ou jogavam à bola. As raparigas bordavam e faziam as quermesses.

A Igreja era enfeitada com verduras, realizava-se uma missa cantada, após a qual a procissão dava a volta à Igreja e depois à vila.

As Bandas tocavam no coreto. Havia bailes de harmónio e fogo de artifício.

À noite os homens faziam as cegadas, ou seja, saíam para a rua vestidos com uma camisa branca e de lenço ao pescoço e com uma guitarra na mão. O seu objectivo era cantar alentejanadas à  desgarrada.

Vinha muita gente de fora para assistir à Festa. De Setúbal chegavam barcos enfeitados que eram ancorados no cais da Ribeira Velha. Diziam até que se o Sr. dos Mártires estava virado para Setúbal, então também era pertencia ao povo de Setúbal e igualmente os protegia.

A festa realizava-se no mês de S. Miguel, Setembro. Começava no sábado de manhã para terminar na segunda-feira à noite.

O trecho seguinte fala-nos dos Malteses e foi cedido pelo Sr. José M. Gonçalves que habita no Torrão.

Num concelho fui nascido

Noutro fui baptizado

E problante fui criado

Para o mais desconhecido

Há anos que não resido

Lá na minha parvalheira

Eu andar nesta maneira

É a minha dependência

Hoje não tenho residência”

Recolha oral feita no Programa de Ocupação de Tempos Livres, Alcácer do  Sal, 1982

(fonte oral desconhecida)

 

 

RELATOS DA IMPRENSA

"Festa dos Maltezes

Pede-nos a commissão d'esta tradicional e popular festividade para fazermos publico que a referida festa, que hoje devia ter logar, se levará a effeito no proximo domingo, 26 do corrente, havendo como de costume arraial na véspera á noite e na tarde do dia da festa, sendo abrilhantado pela philarmonica Amisade."

Pedro Nunes, nº 164, 19 Set 1909

"Festa dos Maltezes

Se bem que não fosse com a pompa dos ultimos annos, realisou-se nos dias 25 e 26 de Setembro ultimo, esta popular e tradicional festividade, que correu animadamente e com grande frequencia, sem que houvesse  o mais leve incidente desagradável.

O fogo, no sabbado á noite, foi de pequeno numero de peças, é certo, mas temos de dizer, em abono da verdade, que muito agradou em attenção qo gosto e á qualidade. tanto o fogo preso como o do ar, foi matisado de côres desusadas e de maravilhoso effeito. O pyrotechnico, que é de Ferreira do Alemtejo, conseguiu deixar bem impressionados não só os membros da commissão da festa como o publico em geral, já pelo bom effeito do fogo já pela modicidade de preço, que foi de admirar.

As festas foram abrilhantadas pela philarmonica Amisade, d'esta villa, que mais uma vez, affirmou os seus creditos, executando com geral agrado diversos e finos trechos musicaes, sobresahindo uma serie de valsas executadas pelo menino Alberto Quita-Quita, filho do nosso correligionario e particular amigo sr. José Raymundo Quita-Quita

Este precoce artista foi muito ovacionado, pelo que tambem o felicitamos e bem assim o habil regente da philarmonica, tambem nosso amigo e correligionario, o sr. Jorge Augusto de Carvalho, como a todos os membros do referido grupo musical."

Pedro Nunes, nº 167, 10 Out 1909

 

PROGRAMA DE 1906

 

 

 

QUADRILHA DO ZÉ RATO

“No início dos 50, juntaram-se uns 50 malteses e formaram a quadrilha do Zé Rato, na qual ele era o próprio chefe. O número dois da quadrilha era o Marrelha que era cego de um olho. Desse bando também faziam parte os conhecidos Luís da Linha e Zé Pequenino. Usavam espingardas, caçadeiras e carabinas. Segundo a lenda, o Bando do Zé Rato não roubava a toda a gente, só aos ricos! Aos pobres dava aquilo que podia. Era uma espécie de Robin dos Bosques alentejano. Tinha, assim, muitos amigos entre o povo. Consta que o Zé Rato foi preso e que quando saiu da prisão se tornou num cidadão honesto,  montando em Setúbal uma mercearia.”

Recolha oral feita no Programa de Ocupação de Tempos Livres, Alcácer do Sal, 1982 (fonte oral desconhecida)

 

 

MITOS E LENDAS

   

A LUZ DA CANICEIRA

LENDA DA MOURA ENCANTADA

LENDA DA COSTUREIRINHA

 

A LUZ DA CANICEIRA

Reza a lenda que em tempos uma mãe teria queimado o próprio filho. Desse acto surgiu uma determinada luz que aparece a muitas pessoas acompanhando-as durante os seus percursos nocturnos. Há quem diga que se tratava de uma mãe solteira que teve um filho ilegítimo e assim que este nasceu lançou-o ao forno onde cozia o pão e a alma da menina recém nascida transformou-se uma luz.

Outra versão aponta para  que a luz é a alma de uma pessoa a quem foi rogada uma praga. A luz acompanhava as pessoas e causava um certo pânico na população. Diz-se que na Herdade de Palma um homem que andava à noite a cavalgar e viu a luz. Por razões desconhecidas  ofende-a e esta reage dando-lhe uma bofetada que o queimou.

Por todo o concelho de Alcácer do Sal a luz da caniceira era conhecida, sendo Palma, S. Romão e a estrada entre Alcácer e Santiago os melhores lugares para ter encontros com a luz.

 Uma imagem “viva” da luz da caniceira foi narrada pela Sra. Natisalda Madeira:

 

Eu via  sempre uma luz em cima de um chaparro

Que apagava e acendia, mas nunca fui ao pé dela,

Essa luz que lhe chamavam a luz da caniceira

Era do tamanho de uma lâmpada ou do tamanho de um punho.

Era amarela muito brilhante e vi-a assim como vejo a luz do petróleo.

As pessoas puseram-lhe o nome de luz da caniceira.
Mas eu não sei porque é que lhe chamavam esse nome.

Só sei que era uma luz e por isso diziam ser uma alma perdida

E por isso a gente a via.”

 

Recolha oral feita no Programa de Ocupação de Tempos Livres, Alcácer do  Sal, 1982

(fonte oral desconhecida)

 

 

LENDA DA MOURA ENCANTADA

Alcácer do Sal é uma antíquissima cidade alentejana, descaindo em anfiteatro sobre o  Sado. Durante o domínio romano, Salacia, como então se chamava, era um município tão importante que os seus habitantes tinham o privilégio de cidadãos de Roma.

A sua importância manteve-se durante a dominação visigótica e árabe, de tal modo que o castelo foi o mais forte da Península Ibérica nesse tempo, defendido por trinta torres de pedra com vinte e cinco metros de altura cada uma e outra ao centro do recinto com vinte e sete metros de alto por vinte e seis de largo.  Difícil foi a conquista deste castelo: Afonso Henriques só à terceira tentativa conseguiu penetrar nas suas muralhas, que perderia depois a favor do miramolim de Marrocos. D. Afonso II, que veio a conquistar a cidade definitivamente, pôs-lhe cerco por dois meses e meio, em 1217. Desde este tempo, diz-se que nas noites de luar de Agosto se sentem no ar sumidos rumores, quase lamentos ou gemidos, vindos dos restos da velha muralha. Diz quem sabe que são, afinal, os cânticos de amor que a linda mourinha Almira cantava a D. Gonçalo. 

Conta a lenda que, quando Afonso II conseguiu penetrar em Alcácer, os Mouros fugiram apavorados ante  a sanha dos cristãos. Naquela precipitação, uns atiraram-se das torres, outros fugiram de roldão pelas portas escancaradas, e alguns utilizaram antigos subterrâneos só deles conhecidos. Na debandada geral, porém, uma menina ficou esquecida, ou, quem sabe, seus pais terão perecido.

Mal falava, ainda. Sabia que se chamava Almira, mas pouco mais conseguia dizer. Às perguntas que lhe faziam, esbugalhava os olhitos negros, sem compreender por que razão não estava ali a mãe ou a ama. E, de repente, virava-se de costas para aquela gente que a interrogava, escondia a cara nas mãos e soluçava baixinho, sacudindo levemente os cabelos negros de noite como um manto de veludo. 

Almira foi recolhida no castelo e criada como cristã. Parecia ter esquecido a sua ascendência e provavelmente esqueceu-a porque ninguém lha lembrava. Foi crescendo rodeada de amor e, como era dotada para a música, aprendeu alaúde, que tocava como mais ninguém. O seu espírito irrequieto e sonhador pregou-lhe a partida de a fazer poetisa. E assim, com o alaúde e a sua poesia, rivalizava com qualquer trovador que pousasse no castelo, tirando sempre a vantagem do esquisito sentir que a tornava diferente. Havia nela uma tristeza ausente, feita de saudades do que não lembrava mas amava. E essa tristeza ausente fazia do seu corpo, espiga dourada, um desejo doloroso de quantos cavaleiros por ali passassem. E Almira deixava-os ir e vir. Observava os seus feitos guerreiros com um sorriso gentil. Honrava-os nos seus poemas, mas continuava sentada no seu trono invísivel, sorrindo um sorriso longínquo, intocável, sempre. Até que um dia D. Gonçalo chegou a Alcácer do Sal. Como qualquer outro cavaleiro, chegou em busca de honra e serviço. E como qualquer outro, também, veio para conhecer Almira e o seu sorriso. D. Gonçalo era assim, nem bonito nem feio. Tinha olhos, uns olhos tais que Almira esqueceu-se a sorrir. Desapareceu a dama dos salões. Nunca mais voltou a sorrir a ninguém do divã onde se sentava cantando tristezas ausentes. Almira estava agora presente e uma dor estranha instalara-se como uma rosa desabrochando eternamente no seu corpo, na sua alma, em si inteira. Encostada ao parapeito da sua torre, Almira soltava no ar gritos de amor em cânticos melodiosos: 

Mais digna de ser servida

Que senhora deste mundo,

Vós sois o meu deus segundo

Vós sois meu bem desta vida.

Vós sois aquela que amo

Por vosso merecimento,

Com tanto contentamento

Que por vós a mim desamo.

A vós só é mais devida

Lealdade neste mundo

Pois sois o meu deus segundo

E meu prazer desta vida.

Almira ouviu. Sentiu a vida fugir-lhe por um instante sem tempo. Depois, quando conseguiu voltar a si, endireitou seu corpo de espiga, olhou o cavaleiro e, sussurrando como um vento que mal toca a copa das árvores, disse, apenas:

-  Oh!, meu senhor D. Gonçalo!

  O resto não conta a lenda, mas diz quem sabe que em certas noites de luar de Agosto ouvem-se os sussurros dos dois amantes que eternamente se quiseram encantados nas muralhas da velha Salacia romana.

 

http://lendas.alentejodigital.pt/alcacer.htm

 

 

LENDA DA COSTUREIRINHA

Circulam várias versões sobre a Lenda da Costureirinha:

Era uma vez uma senhora que era costureira e fez um vestido de noiva para a filha que morreu antes do casamento. As pessoas dizem que ainda hoje se pode ouvir a máquina de costura a trabalhar com tanto pormenor e lucidez que até se pode discernir o barulho da linha a partir.

Era uma vez uma senhora que era costureira e tinha um marido alcoólico. Assim, era ela quem  sustentava a família, costurando dias sem parar. Nem mesmo depois de morta parou de costurar.

Era uma vez uma senhora que era costureira  e adoeceu gravemente. Fez então a promessa de que doava a máquina de costura se melhorasse. Porém, assim que recuperou esqueceu-se do prometido. Quando morreu o castigo final foi de continuar a costurar.

Era uma vez uma senhora que era costureira e prometeu fazer um manto a Nossa Senhora e não o fez. Assim, quando morreu foi obrigada a cumprir a sua promessa.